A entregadora de jornais

Ela era uma senhora esquelética e andava encurvando as costas, como se fizesse um grande esforço para ajustar naquele corpo pequeno o mundo que guardava dentro de si. Nos conhecemos em uma parada de ônibus no Eixo Monumental, na altura da Praça do Cruzeiro. Não sei, até hoje, o seu nome. Mas lembro bem de suas histórias. E de sua alegria. Embora faltasse em seu sorriso um par de dentes, ela ria um riso franco e, talvez, melancólico. A gente só de olhar podia saber que sua existência era perpassada por sofrimento. Ainda assim, ela dava conta de suportar a amargura da falta, da fome, da privação. Da cidade.

Essas mulheres que vão pelas ruas, entre o concreto, são inspiração. São resistência pura. Continuar lendo

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Um dia, afinal

Vai passar. Quando a exaustão bate à porta, ligo o som para ouvir, de mansinho, um rastro qualquer de esperança. Escuto a voz dessa gente que há décadas resiste. Eles sopram rimas de força bruta, escondidas por entre versos discretos. Os desatentos nem percebem. Mas a arte conforta, a arte movimenta. Mesmo quando se olha ao redor e o que predomina é dor. Essas vozes todas insistem em cantarolar que vai passar. Continuar lendo

o que há

Voltou-se para ele, com ar desolado:

– O que vai ser de nós? – suspiro – O que aconteceu com a gente?

– Não sei. Aconteceu alguma coisa com a gente?

– Sim. Quer dizer, não entre a gente. Mas com nós dois, separadamente.

Ele fita o asfalto molhado, refletindo, pelas luzes dos carros, o vazio que dá na alma dos outros em um domingo à noite. Não na dele, por não acreditar em alma. Ou porque, caso tenha uma, ela se mantém vazia independente do dia da semana. Responde, com calma: Continuar lendo

tudo passa

Os dias já consumiram dois terços de março. O tempo passa discreto e calado. Li, certa vez, que ele é como um rio, que leva as horas no embalo suave de suas águas. Veloz e quase imperceptível. Em março, as águas desabam incessantes, em todo lugar. Sorte a minha. Assim, quase acredito que você também vai passar rápido. Além disso, não importa muito a vegetação do lugar, todo o mundo se renova com o outono. No Cerrado, a seca de abril seca até os amores.

Mas eu não quero esperar setembro para florescer, tal qual um ipê-amarelo.

No mais, quer saber? Eu não sei o quê. Só sei que quero você. Continuar lendo