madrugada

Não sei qual é meu problema. Toda noite de programações vazias e pouco excitantes – ou mesmo nas mais conturbadas, só que você não precisa saber disso –, minha boca sussurra para minhas mãos que elas agarrem o telefone. Os dedos discam, compulsivos, aquela sequência numérica que me transmite até você.

Os olhos esperam apreensivos qualquer sinal da sua voz. Quando você, enfim, atende, os ouvidos suspiram aliviados.

É que meu corpo inteiro quer o teu. Continuar lendo

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arrependimento

Enfiou as mãos nos bolsos da calça, angustiada. Pensou em segurar um copo em uma mão e, sei lá, um cigarro na outra. Não que já tivesse fumado alguma vez na vida. Só queria parecer mais confiante. As pessoas precisam sempre segurar firme, com as duas mãos, em qualquer coisa, para simular o mínimo de domínio sobre a situação. Ou sobre si mesmos.

Na falta de copos e cigarros, escondeu o nervosismo dentro da roupa e respirou bem fundo. Continuar lendo

pretérito imperfeito

É boa esta sensação de coração apertado, querendo dar meia volta, que a gente leva quando vai embora. Devem ser os tais momentos que se eternizam porque terminam na melhor parte. Sei lá, acho meio ruim ser a última a sair da festa. Não me dou muito bem com o vazio e sempre resta só ele para acompanhar quem fica para apagar as luzes. Continuar lendo

encanto

Não estava nos meus planos encontrar você assim, de última hora. E, quando te encontrei, não estava na minha coragem romper a fase dos dois ou três olhares e tentar qualquer aproximação.

Não sei, acho que, mesmo sem saber, você acredita no amor mais do que eu. Alguém tinha que fazer isso por nós. Ou, sei lá, vai ver é verdade que essa sua ousadia não passa de teimosia e eu estou aqui, fantasiando sozinha um romance desses bonitos de se contar por aí, aos quatro ventos, igual aos de contos de fadas. Um romance que a gente nem vai viver. Mas que é bom só de pensar. Continuar lendo

sem eixo

A gente está juntos há uns dois anos, quase três. Ou estávamos juntos, para ser mais preciso. Na verdade, se a questão é ser exato, deve dar para contar nos dedos os dias em que estivemos juntos de fato. Quero dizer, com aqueles rótulos que as pessoas pregam nos relacionamentos e em paz, como um casal normal. Se é que isso existe. Mas vivemos por alguns dias – dias isolados, admito – sem maiores dramas. Em todos os outros, íamos e voltávamos, como um ioiô nas mãos de uma criança de seis anos.

Ela era a criança. Eu, o brinquedo.

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