madrugada

Não sei qual é meu problema. Toda noite de programações vazias e pouco excitantes – ou mesmo nas mais conturbadas, só que você não precisa saber disso –, minha boca sussura para minhas mãos que elas agarrem o telefone. Os dedos discam, compulsivos, aquela sequência numérica que me transmite até você.

Os olhos esperam apreensivos qualquer sinal da sua voz. Quando você, enfim, atende, os ouvidos suspiram aliviados.

É que meu corpo inteiro quer o teu. Continuar lendo

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arrependimento

Enfiou as mãos nos bolsos da calça, angustiada. Pensou em segurar um copo em uma mão e, sei lá, um cigarro na outra. Não que já tivesse fumado alguma vez na vida. Só queria parecer mais confiante. As pessoas precisam sempre segurar firme, com as duas mãos, em qualquer coisa, para simular o mínimo de domínio sobre a situação. Ou sobre si mesmos.

Na falta de copos e cigarros, escondeu o nervosismo dentro da roupa e respirou bem fundo. Continuar lendo

pretérito imperfeito

É boa esta sensação de coração apertado, querendo dar meia volta, que a gente leva quando vai embora. Devem ser os tais momentos que se eternizam porque terminam na melhor parte. Sei lá, acho meio ruim ser a última a sair da festa. Não me dou muito bem com o vazio e sempre resta só ele para acompanhar quem fica para apagar as luzes. Continuar lendo

primeiros capítulos

Então o rapaz, que parecia mais interessado nele do que nela, organizou a gola de sua camisa azul-marinho, armou um sorriso e se aproximou. Perguntou, firme:
– Vocês são namorados?
Eles se olharam, segurando o riso, meio confusos.
– Não – respondeu ela, visivelmente se divertindo com a situação.
Ele tentou explicar em poucas palavras. Mas não era muito fácil de entender. Não que eles fossem difíceis juntos, muito pelo contrário, aquilo tudo entre os dois acontecia com a maior espontaneidade e era bom. Isso que era difícil de entender e – muito mais – de explicar. Continuar lendo

encanto

Não estava nos meus planos encontrar você assim, de última hora. E, quando te encontrei, não estava na minha coragem romper a fase dos dois ou três olhares e tentar qualquer aproximação.

Não sei, acho que, mesmo sem saber, você acredita no amor mais do que eu. Alguém tinha que fazer isso por nós. Ou, sei lá, vai ver é verdade que essa sua ousadia não passa de teimosia e eu estou aqui, fantasiando sozinha um romance desses bonitos de se contar por aí, aos quatro ventos, igual aos de contos de fadas. Um romance que a gente nem vai viver. Mas que é bom só de pensar. Continuar lendo

ciranda

Era para ser simples esta história de se apaixonar. Quero dizer, quando, depois de uma série de acontecimentos corriqueiros e banais, a vida te faz encontrar alguém que, raramente, é a pessoa que você imaginava ao ler um romance água-com-acúçar de final feliz. Mas essa pessoa, sei lá por que diabos, faz seu coração disparar, seus hormônios ficarem mais instáveis do que já são, te faz perder a razão. Não sei muito bem, acho que é mais ou menos o que eles chamam de felicidade (dá para acreditar?). Continuar lendo