A entregadora de jornais

Ela era uma senhora esquelética e andava encurvando as costas, como se fizesse um grande esforço para ajustar naquele corpo pequeno o mundo que guardava dentro de si. Nos conhecemos em uma parada de ônibus no Eixo Monumental, na altura da Praça do Cruzeiro. Não sei, até hoje, o seu nome. Mas lembro bem de suas histórias. E de sua alegria. Embora faltasse em seu sorriso um par de dentes, ela ria um riso franco e, talvez, melancólico. A gente só de olhar podia saber que sua existência era perpassada por sofrimento. Ainda assim, ela dava conta de suportar a amargura da falta, da fome, da privação. Da cidade.

Essas mulheres que vão pelas ruas, entre o concreto, são inspiração. São resistência pura. Continuar lendo

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Um dia, afinal

Vai passar. Quando a exaustão bate à porta, ligo o som para ouvir, de mansinho, um rastro qualquer de esperança. Escuto a voz dessa gente que há décadas resiste. Eles sopram rimas de força bruta, escondidas por entre versos discretos. Os desatentos nem percebem. Mas a arte conforta, a arte movimenta. Mesmo quando se olha ao redor e o que predomina é dor. Essas vozes todas insistem em cantarolar que vai passar. Continuar lendo

Olá, estranha,

Como vai você?

Cheia de novidades, suponho. Mais de três anos se passaram. Reparou?

Encontrei sua família na rua dia desses. Fiquei feliz em vê-los. É sempre bom ter notícias de velhos amigos.

Na verdade, até nos dias em que te avistei de relance por aí, me senti bem. É reconfortante saber que você está ok, que sobrevive. Eu também, obrigada, caso queira saber.

Onde foi mesmo que a gente se perdeu? Continuar lendo

o que há

Voltou-se para ele, com ar desolado:

– O que vai ser de nós? – suspiro – O que aconteceu com a gente?

– Não sei. Aconteceu alguma coisa com a gente?

– Sim. Quer dizer, não entre a gente. Mas com nós dois, separadamente.

Ele fita o asfalto molhado, refletindo, pelas luzes dos carros, o vazio que dá na alma dos outros em um domingo à noite. Não na dele, por não acreditar em alma. Ou porque, caso tenha uma, ela se mantém vazia independente do dia da semana. Responde, com calma: Continuar lendo

tudo passa

Os dias já consumiram dois terços de março. O tempo passa discreto e calado. Li, certa vez, que ele é como um rio, que leva as horas no embalo suave de suas águas. Veloz e quase imperceptível. Em março, as águas desabam incessantes, em todo lugar. Sorte a minha. Assim, quase acredito que você também vai passar rápido. Além disso, não importa muito a vegetação do lugar, todo o mundo se renova com o outono. No Cerrado, a seca de abril seca até os amores.

Mas eu não quero esperar setembro para florescer, tal qual um ipê-amarelo.

No mais, quer saber? Eu não sei o quê. Só sei que quero você. Continuar lendo

madrugada

Não sei qual é meu problema. Toda noite de programações vazias e pouco excitantes – ou mesmo nas mais conturbadas, só que você não precisa saber disso –, minha boca sussurra para minhas mãos que elas agarrem o telefone. Os dedos discam, compulsivos, aquela sequência numérica que me transmite até você.

Os olhos esperam apreensivos qualquer sinal da sua voz. Quando você, enfim, atende, os ouvidos suspiram aliviados.

É que meu corpo inteiro quer o teu. Continuar lendo