Brasília, 31 do 3

Oi?

Você, provavelmente, nem está mais aí. Mas eu, sem mais, sem menos, só queria saber: como vão as coisas? Não te escrevo de mês em mês já há anos, não?

Chega a ser risível como a vida corre e a gente tropeça nos próprios passos, um pouco aqui, outro acolá, até se desvencilhar de gente querida.

Outro dia – na verdade, já faz algumas estações –, esbarrei com Fulano. Estávamos eu e mais um punhado de amigos – meus e dele.

Fulano nos viu de longe, deu uma volta, duas, três. Rodeou, rodeou. Mas não se aproximou. Atordoados, meio zonzos com essas viradas de nostalgia, nós observamos a cena, imóveis. E então a vida passou. E a gente nem se falou.

Como é que pode?

Logo nós.

Mas não vou me ater ao vazio.

Afinal, os dias têm andado bem cheios. Até transbordam sensações.

Agora mesmo, tentei reviver nossas noites de seca e céu limpo de escassas nuvens. Coloquei para tocar uma boa música e cerrei os olhos com delicadeza, que é para ver se volto àquelas horas sem sobressaltar o tempo. Com sorte, ele não percebe minha tentativa de burlar suas regras e eu viajo até nós em um lapso de distração e descuido.

Se não me falha a memória, estaríamos, a uma hora dessas, dançando, sem ritmo e sem problemas, qualquer ciranda ou canção que o valha.

Mas é melhor não arriscar fichas e ânimo nesta ideia. A gente ia acabar de perdendo no tempo, tal qual nos perdemos nos dias.

Vamos ficar só na lembrança?

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