Olá, estranha,

Como vai você?

Cheia de novidades, suponho. Mais de três anos se passaram. Reparou?

Encontrei sua família na rua dia desses. Fiquei feliz em vê-los. É sempre bom ter notícias de velhos amigos.

Na verdade, até nos dias em que te avistei de relance por aí, me senti bem. É reconfortante saber que você está ok, que sobrevive. Eu também, obrigada, caso queira saber.

Onde foi mesmo que a gente se perdeu?

Juro, não sei. Nunca soube.

Foi repentino. Você, sem mais nem menos, decidiu se desvencilhar de mim. Não se prestou nem mesmo a me dar satisfações. Não dedicou a mim uma justificativa sequer.

Ora bolas! Que ideia de jerico a sua… A gente formava uma bela dupla.

Eu sei, você também se recordou dessa obviedade, ainda que tardiamente.

A verdade é que, a uma altura dessas, já nem sei mais quem é você.

Mas sei bem quem era. Serve?

Você era esquisitíssima, ainda que estivesse invariavelmente, e cada vez mais, tentando se esconder atrás de uma espessa camada de normalidade. Céus, você adorava dançar feito uma galinha – e não é sexismo (claro que não!), é que, literalmente, você imitava o animal, ciscando e cacarejando.

É cada uma…

Entretanto, quem sou eu para julgar, não é mesmo?

Eu e minhas incompreendidas estranhezas existenciais.

Só que você, a sua maneira, me entendia. Ou fazia de conta como ninguém.

Bom, para ser sincera, você não entendia nada. Aposto. Você só é uma boa ouvinte.

Não sei ao certo onde pretendo chegar com esse monólogo sem sentido. De uns tempos para cá, me deu saudade de você. Saudade mesmo. Não é só falta. Já te expliquei a diferença. Falta é vazio. E o que eu sinto é cheio, carregado de boas memórias e de uma nostalgia suave, doce com um leve amargor.

Não, por favor. Não confunda essa pitada amarga em minha saudade com rancor. Não guardo qualquer resquício de mágoa de você. Ao pensar na gente, só me vêm à cabeça lembranças alegres ou, quando muito, flashes de momentos em que tivemos que, carinhosamente, consolar uma à outra. Ah, se bem que teve também aquela vez que você brigou comigo… Foi por causa do papel higiênico que você resistia tanto a comprar? Ou porque você não queria limpar o vaso sanitário? Sei lá, já não lembro mais. Mas com certeza era por causa das divisões de tarefas domésticas. Das quais, diga-se de passagem, você fugia como o diabo foge da cruz.

Exceto por esse incidente no nosso percurso, bem me recordo, a gente sabia até a hora de ir embora. Pense bem, nos dias de hoje, quem é que sabe o momento certo de se retirar? Isso é coisa rara. Melhor ainda! Sabíamos, inclusive, respeitar nossos silêncios. O silêncio de uma não atrapalhava o silêncio da outra e o silêncio da outra não esbarrava no silêncio da uma. Lembra?

Contudo, não posso deixar de mencionar: como éramos diferentes! Opostos completos. Não havia consenso em nada. Nem sobre o mar ser azul ou verde. Em nada concordávamos e seguíamos na discordância até a exaustão total. Um desastre absoluto nós duas. E, ao mesmo tempo, de alguma forma, a gente funcionava bem.

Pensei em te escrever uma carta longa, cheia de explicações e cobrando esclarecimentos. Contudo, não tem por quê. Ninguém mais lembra ao certo o que desencadeou anos de distância. E, desconfio, nem vale a pena.

Mando este “alô” para você saber que em uma noite qualquer de um dia comum, lembrei de você. Não, não. Lembrei de nós. E é uma lembrança boa que guardo em mim com enorme carinho, assim como, provavelmente, vou guardar esta carta. Vou guardá-la bem aqui, com cuidado. Talvez, com sorte, você também sinta o aperto que a saudade dá e cruze por esses lados. Se tropeçar nos meus escritos e tiver vontade de voltar, ótimo. Te espero. Estou curiosa para saber quem é você a essas alturas. Se você não passar, não tem problema. Também gosto de carregar comigo a memória distante de quem você foi.

Qualquer hora, nossos silêncios vão se encontrar de novo por aí e a gente vai sentir aquele aconchego bom que só velhos conhecidos sentem diante do silêncio. E vai ficar tudo bem.

 

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Ilustração: Mônica Crema

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