garrafa

A.,

Sei que disse que a correspondência do mês passado seria a última e você deve ter suspirado de alívio pelo meu amor não ser mais seu. Por isso envio este rascunho mar adentro, Atlântico afora. Na esperança de que as ondas, discretamente e mais uma vez, extraviem o que restou de nós. Além disso, convenhamos, você nunca leva a sério o que eu digo. No fim, não adianta, você ainda tem dois terços do meu carinho. Os dias correm bem mais depressa que o esquecimento. E, às vezes, sinto sua falta.

Ou, quem sabe, o que falta não seja bem você. Talvez eu tenha me perdido. Aí, não tem jeito, você vai me desculpar, mas há tempos só sei me encontrar em você. Pelo menos, se eu fosse eu, não pensaria em lugar melhor para buscar abrigo do que ao seu lado. Sempre que me perco, pergunto, como quem não quer nada, se você não me viu por aí, às margens mediterrâneas dessas águas distantes.

Não quero exacerbar qualquer emoção. Elas não existem mais. Não entre a gente. Hoje somos outros. Eu queria te encontrar para compartilhar gargalhadas e conversar à toa percorrendo cada hora da madrugada. Sabe, ando com medo. Sem ter para quem desabafar todas as minhas loucuras. Você, do seu jeito atravessado, entende cada uma delas. Se você estivesse aqui, eu confessaria essa incerteza incomoda de não fazer ideia do que vai ser de agora em diante.

Em todos os sentidos.

Sim, você me avisou mil vezes o que podia dar errado. Isso eu conserto. Erros são remendáveis. Mas o que fazer com acertos?

Eu me apaixonei por outra pessoa, parece. Você não deve querer escutar isso, mas tenta entender. Você era, até então, tudo que eu sabia sobre o amor. De repente, eu não sei mais nada. Nem de você, nem dele, menos ainda de mim.

Quem é? Ele parece ser só um cara qualquer, escondido atrás de um amontoado de estereótipos e superficialidades. Sem nada a oferecer. Para ninguém. É preciso paciência para desconstruir, uma por uma, as barreiras que protegem tanta covardia. Até que ele surge. Nu, cru.  E eu surjo junto. Com tudo que tenho direito e mais. Com ele, posso ser quem eu quiser. Posso ser eu, apenas. Não tem problema.

Ele  é como o mocinho cheio de defeitos daquele livro de cabeceira que folheio desde pequena. Lembra?

Tá, você vai dizer que tenho mania de romancear tudo. Pode ser.

É que ele tem qualidades que admiro e defeitos que eu adoro. Poxa vida, isso é novo para mim. Aposto que também é para você. Vai dizer que já sentiu isso por algum ser vivo bípede cujos dedos fazem movimento de pinça?! Sei lá, eu abomino até os meus melhor maquiados defeitos. Imagina os alheios…

Menos com ele. Se você me permite recorrer ao clichê, com ele é diferente.

Pensei em te escrever porque não sei bem o que fazer com isso que sinto. Você costumava ter a resposta. Acho, contudo, que prefiro descobrir por mim mesma dessa vez. Passa da hora de tomar meu caminho, contrário ao seu. Em direção ao dele?

Não importa o que ou quem aconteça a seguir, você será uma lembrança mais doce que os morangos que tanto odeia.

De sua nostálgica amiga,
M.

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