Rascunhos (1)

Desculpe encher sua caixa de e-mails com todas as minhas confusões. Desculpe, aliás, por ainda usar esta ferramenta arcaica pré era digital para te importunar. Eu poderia ser singelo e resumir minhas intenções em um SMS ou em qualquer desses métodos de bate-papo virtuais que andam por aí consumindo a realidade. Mas, você bem sabe, nem eu sei quais são minhas intenções.

Queria mesmo era te mandar um pombo correio. Se eu não fosse contra os maus tratos aos animais… Se não me engano, também não é tempo de correio elegante – acho que isso só existe nas festividades juninas ou, quando muito, julinas. O que nos resta, neste caso, é o correio eletrônico, garota.

Já é dezembro e faz uma tarde azul do lado de lá da janela. Não é para te contar isso que estou aqui, admito. Estou aqui meio que para jogar papo fora, meio que para despistar em mim esta vontade de falar com você. Esta vontade de você.

Dia desses ouvi aquela canção famosa de uma das minhas bandas favoritas de adolescência. Sim, a banda que você não gostava, mas sempre acabava me acompanhando em todos os shows e no final pedia bis com mais empolgação que eu.

Lembra da letra? É sobre beijos de despedida e sentimentalismos do gênero. Bom, o engraçado é que eu pensei em nós quando ouvi. Tudo bem, beijos de despedida acontecem pelas ruas a torto e a direito, o tempo inteiro, e ninguém além das partes envolvidas dá muita importância ao caso. É que o nosso foi diferente – apesar de eu desconfiar, de leve, que todos digam o mesmo. Foi quase consciente, ainda que indesejado. Mas a gente, no fundo, sentiu que era o último e ninguém podia tirar de nós o prazer de descobrir premeditadamente aquele pequeno segredinho do destino.

Eu te abracei bem apertado e você soltou um sorriso tão bobo que eu nem soube entender, depois me beijou sem medo que eu percebesse o tamanho do que você sente por mim – o que, convenhamos, não faz muito seu tipo.

Você é cheia de medos. Disso, daquilo, daquele, de mim. De nós.

Claro, isso não é nada relevante agora. Para ser sincero, não sei por que ainda estou diante do computador, caçando as teclas que melhor enquadram o que eu quero confessar a você e ouvindo o acústico dos caras que escreveram – sem saber – o fim da nossa história (e provavelmente de muitas outras).

“Tudo bem se não deu certo”. Se não fosse um trecho da música, eu apostaria que foi uma frase que você ensaiou no espelho do elevador antes de me encontrar e depois não teve coragem de dizer, com medo de soar clichê. Você e seus medos.

Quer saber? Eu achei mesmo que nós chegamos bem perto. Bem pertinho mesmo. Quase lá. Aí resolvemos colocar o beijo de despedida no meio. Nem todos os casais – casal? – merecem um fim. Não, não que a gente deva recomeçar. Acho que entre nós cabem reticências que talvez nunca ninguém vá completar.

O que importa é que você vai lembrar de mim. E eu de você. Afinal, ainda é começo de dezembro. Fico meio emotivo na temporada das festas. Caramba, você vai fazer a maior falta quando as luzes se acenderem, a casa esvaziar e a gente não estiver juntos para encher cada cômodo com nossas dúvidas e desejos um do outro.

Se eu não fosse grandinho demais para essas coisas e também se beijo de despedida se desse mais de uma vez na vida, eu pediria você de Natal. Ou, pelo menos, no meu Natal.

Faz uns anos, me contaram que Papai Noel não existe.

As pessoas adoram inventar razões para nos desiludir.

Um grande beijo

(de despedida),

maquinadeescrever2

* Com referências e citações à música Você Vai Lembrar de Mim – Nenhum de Nós

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